Sindicato considera insistência desnecessária do Governo na privatização da APGB

Ivo Cá, presidente do sindicato de base

Os trabalhadores da Administração dos Portos da Guiné-Bissau garantem que se opõem à intenção do Governo liderado por Umaro Sissoco Embaló em privatizar a empresa, considerando este facto uma insistência desnecessária do executivo em levar avante o processo em causa.

Na ótica do presidente do sindicato de base dos trabalhadores da APGB, a intenção de levar os portos para o setor privado tem algo subjacente, ou, senão, alguém beneficiará de alguma contrapartida remuneratória.

Em conferência de imprensa realizada na terça-feira, dia 18 do corrente mês, à frente do Ministério da tutela, Ivo Cá prometeu continuar a exigir ao executivo que recue nesta intenção, pois isso vai deixar mais de 30 mil famílias com fome.

Adiantou que, neste momento, o sindicato tem conhecimento da criação de uma comissão constituída por sete pessoas. Esta comissão já lançou e distribuiu, no dia 27 do mês passado, o caderno de encargos sem, no entanto, dar conhecimento ao trabalhadores e ao sindicato.

Ivo Cá informou que a comissão criada deve entregar ao Governo o relatório dos trabalhos realizados durante este tempo. Para tal, o responsável dos trabalhadores pediu a intervenção do Presidente da República para travar a intenção de privatizar a maior estrutura portuária do país. Por esta razão, convidou ao Chefe de Estado a visitar o parque de estacionamento de contentores a fim de constatar, “in loco”, os trabalhos desenvolvidos com as receitas internas da APGB.

“Se, ontem, os funcionários dos portos sofreram sob a administração colonial portuguesa, hoje não deveria sofrer sob debaixo do domínio dos próprios filhos da terra. Os trabalhadores dos portos não merecem este tratamento desumano”, lamentou.

Por outro lado, afirmou que em nenhuma circunstância o sindicato vai estar de acordo com a privatização.

Na explicação feita por este sindicalista, desde que foi dada a conhecer a deliberação sobre a privatização dos portos, em nenhum momento foram informados pelo Governo sobre esta ideia, tendo sido ele, enquanto responsável pelos trabalhadores, a escrever uma carta pedindo uma audiência ao ministro para melhor esclarecimento.

Ao longo da conversa com Fidélis Forbs, este  informou-lhes de que foi interpelado duas vezes no Conselho de Ministros sobre a privatização de portos, tendo dito, na altura, que ia primeiramente ouvir o sindicato para depois poder dar uma resposta ao Governo, o que para o presidente de sindicato não aconteceu porque, se não fosse por sua insistência, o ministro jamais os convocaria.

Este responsável sindical assegurou que, afinal, de há muito que era intenção do Governo em privatizar os portos. Foi  por isso que bloqueou a verba que o BOAD deveria disponibilizar para a Administração dos Portos no montante de 25 bilhões de francos CFA para os trabalhos de dragagem e conclusões de pavimentação dos parques.

Este valor não foi utilizado devido à dívida que o Estado da Guiné-Bissau havia contraído com esta instituição financeira, num montante aproximado de três bilhões de francos CFA.

“Nós, com o esforço interno e dedicação da administração, conseguimos realizar os trabalhos de pavimentação dos parques de contentores. Portanto, hoje os portos não têm problema de estacionamentos de contentores e muito menos com salários em atraso”, esclareceu.

Na explicação deste sindicalista, os funcionários temem pela sua sobrevivência se a empresa for privatizada, principalmente dos que já completaram mais de 20 ou 30 anos de serviço e que aguardam pela reforma.

Ivo da Silva Có contestou a forma como o Governo está a conduzir a privatização, pois ela não deve ser feita assim, sem a observância dos princípios legais estabelecidos. Ainda bem que isto acontece num momento em que a Assembleia Nacional Popular não está a funcionar em pleno, órgão por excelência que deveria  debruçar-se sobre esta matéria.

Disse que, desde a deliberação do Conselho de Ministros datada de 23 de fevereiro, todos os trabalhadores ficaram confusos sem saber do seu destino no futuro, facto que os inquieta bastante.

“O que temos estado a constatar, é que todos os passos dados até aqui não foram claros, uma vez que ninguém nos garante que amanhã teremos o nosso posto de trabalho assegurado pela empresa que vier a ganhar o concurso”, salientou.

“Aproveito para vos contar a seguinte história: um pai tinha dois filhos, um doente e outro saudável. Entre os dois, o que mais necessitava de ir ao hospital era o que se encontrava doente. Porém, se o pai, em vez de se preocupar em apresentar ao médico aquele que é doente, levar aquele que não sofre de nenhuma doença, então é porque o pai tem algum interesse nisso. É exatamente o que está a acontecer connosco. Há empresas que já foram à falência, mas até agora não foram privatizadas. Se a APGB, que é rentável, vai ser privatizada, então é porque há mãos ocultas a querer isso”, rematou.

Sublinhou, por outro lado, que o maior devedor da APGB é o Estado da Guiné-Bissau que, de 2004 a 2014 contraiu uma dívida de mais de cinco bilhões de francos CFA.

Deixou um recado ao Governo no sentido de abdicar da sua reiterada posição de privatizar os portos,  atitude que poderia permitir o acesso à verba que está bloqueada pelo BOAD e que, abanadonando o Governo este processo,  dentro de pouco menos de três anos os portos  transformar-se-iam num dos melhores desta costa ocidental africana.

Salientou que, enquanto responsável sindical, não deseja ver amanhã os seus associados a andarem com dísticos nas ruas a exigir indemnização, como vem acontecendo com outras empresas.

Alfredo Saminanco  

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