Líder do PS-GB responsabiliza forças políticas pela crise vigente

O presidente do Partido Socialista da Guiné-Bissau, Secuna Baldé, afirmou que não lhes compete apontar qualquer solução para um acordo de que não fazem parte. Segundo o ex-ministro conselheiro da Embaixada da Guiné-Bissau na República Federativa do Brasil, trata-se de um assunto que diz respeito às partes envolvidas, porque só elas sabem o que assinaram em Conacri.

Secuna Baldé explicou, por outro lado, que se os guineenses entregaram à comunidade internacional toda a responsabilidade pela solução dos problemas internos, o país corre o risco de alienar a soberania nacional que, do seu ponto de vista, é algo inegociável

 

JNP – Senhor presidente, qual o seu ponto de vista sobre a atual crise político-institucional, que teve início em 2015 e que dividiu a classe política e a sociedade guineense? Como poderá ser ultrapassada fora da esfera do Acordo de Conacri?

 

Secuna Baldé (SB) – Muito obrigado, caro jornalista. Primeiro de tudo, devo esclarecer que o Partido Socialista não faz parte desta crise e que, por isso, não está incluído nesse divisionismo provocado pelos partidos políticos. Segundo, não nos compete apontar nenhuma solução para um acordo do qual não fazemos parte. Isso é um assunto que diz respeito às partes envolvidas. Somente eles sabem o que assinaram.

 

NP – Muita gente admite que, tanto o mediador Alpha Condé, como o famigerado acordo rubricado em Conacri não foram assertivos na forma de dirimir este conflito. Concorda? Porquê?

 

SB – A crise deveria ter sido discutida e resolvida internamente. A mediação internacional é importante e deveras necessária em alguns países. Mas, no nosso caso, deveria ter sido solicitada apenas para complementar pontos que careciam de ser melhorados. Se entregarmos à comunidade internacional toda a responsabilidade pela solução dos problemas internos, corremos o risco de alienar a nossa soberania que, do nosso ponto de vista, é algo inegociável.

 

JNP – Na sua opinião, quem são os grandes responsáveis por esta crise?

 

SB – Os grandes responsáveis desta crise são as forças políticas que têm conduzido o país desde as últimas eleições presidenciais e legislativas de 2014.

 

JNP – Acha que o Presidente da República poderia ter tido outro papel para solucionar esta crise?

 

SB – O senhor Presidente da República, quer queiramos quer não, é um dos responsáveis desta crise, da mesma forma que o partido vencedor das últimas eleições, ou, se quisermos, aqueles que têm maior número de assentos no parlamento, bem como os vários grupos e tendências no interior desses partidos. Assistimos, durante três anos, a uma luta sem tréguas pelo poder, cada um evidenciando o seu argumento diariamente na comunicação social. Porém, para a saída desta crise, o Presidente da República é a peça fundamental devido às suas competências constitucionais, enquanto primeiro magistrado da Nação.

 

JNP – Dê um exemplo?

 

SB – Primeiro, dissolver este parlamento que, praticamente, pouco funcionou. Depois, formar um governo de consenso, com a participação de todos os partidos que tomaram parte nas últimas eleições. E, por fim,  marcar a data para as eleições legislativas.

Ao citar esses partidos, quero dizer que esses (14) partidos receberam votos de uma parcela do povo guineense e, por isso, gozam de toda a legitimidade para fazer parte do governo. Não faz sentido colocar no Governo partidos com (1) ou (2) deputados, cujo mandato já perderam por não terem sido capazes de encontrar soluções para debelar a crise e, consequentemente, não zelarem pelos interesses do povo que é, afinal, a função deles. Se formos a analisar, esses partidos que ficaram de fora são merecedores, até, de muito maior confiança do povo eleitor, embora não tenham conseguido eleger qualquer deputado devido ao menor número de votos obtidos.

 

JNP – O Presidente da República nomeou um primeiro-ministro fora do âmbito do Acordo de Conacri, com a missão de organizar as eleições legislativas, respeitando o calendário eleitoral. Acredita que o futuro governo poderá cumprir esta missão?

 

RSB – Conforme foi dito anteriormente, se houver consenso tudo isso será possível.

 

JNP – Concorda com a realização das eleições legislativas no decorrer deste ano, ou considera que as bases devem estar mais bem preparadas para que o escrutínio tenha lugar juntamente com as Presidenciais em 2019?

 

SB – Para o Partido Socialista, o calendário eleitoral deve ser respeitado. A atual legislatura termina em abril, faltam praticamente dois meses. Se houvesse boa vontade da ANP, poderia reunir-se uma única vez em plenária e eleger a nova Comissão Nacional Eleitoral (CNE) e o seu respetivo presidente. A partir daí, estaríamos aptos a ir para as eleições legislativas, segundo o calendário normal, que seria entre outubro e novembro deste ano.

 

JNP – Nos últimos tempos tem-se deslocado muito ao estrangeiro. Estas viagens têm proporcionado algo de palpável para o seu partido?

 

SB – O Partido Socialista tem vindo a organizar-se e a preparar os seus militantes de forma estruturada e serena. Temos militantes empenhados, bem como alguns dirigentes com grande experiência e capacidade intelectual. Temos uma sede condigna e contamos com uma grande adesão por parte de muita gente, principalmente da camada juvenil e feminina. Que se marque a data das eleições e logo veremos!

Como sabe, antes de enveredar pela política, apesar da minha juventude, vivi no mundo da diplomacia. Isso tudo foi uma grande valia para a minha carreira, que penso capitalizar para o crescimento do PS-GB, do qual sou líder atualmente. A minha experiência diplomática e o rol de contactos que mantenho com algumas grandes figuras da política externa, certamente que vão alavancar o Partido.

Daí a incompreensão de alguma gente em relação à minha pessoa. Porém, o que posso garantir-lhes é que vou prosseguir com os meus contactos, tentando estabelecer relações de amizade e de cooperação com todos os partidos socialistas do mundo, partidos trabalhistas e sociais-democratas no intuito de fortalecer cada vez mais o nosso partido.

 

JNP – Pelo elevado número de partidos políticos existentes no país, não admite a formação de uma plataforma de entendentimento entre os de menor expressão eleitoral para enfrentar aqueles que normalmente vencem, neste caso o PAIGC e o PRS, uma vez que os eleitores guineenses têm concentrado o seu voto naquelas formações políticas?

SB – Tudo vai depender da evolução da situação política nos próximos dias. O que posso garantir-vos é que nós, dirigentes e militantes do Partido Socialista, estamos muito empenhados na nossa organização interna e temos a firme convicção de que iremos ser a esperança dos guineenses, principalmente da camada feminina, dos jovens universitários, da população camponesa, dos pobres e excluídos, dos quadros técnicos e intelectuais, dos operários e profissionais liberais, das pequenas e médias empresas, dos recém-formados que se encontram no desemprego, dos idosos, enfim, somos um partido de massa, a favor dos mais desfavorecidos. Somos um partido com uma ideologia que dá esperança a todos que aspiram por uma vida melhor.

 

Texto: Seco Baldé Vieira

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