Elogios e críticas aos 43 anos de independência

 

Os guineenses divergem nas suas opiniões quanto ao balanço dos 43 anos da independência do país. Uns, consideram negativo a partir de 1980; outros, acham que é positivo pelo facto de termos conquistado a liberdade, uma bandeira e um hino, mas há compatriotas que criticaram a organização da efeméride.

O Nô Pintcha recolheu estas opiniões no âmbito das comemorações do 43.º aniversário da independência da Guiné-Bissau sob dominação colonial portuguesa.

 

Vicente Bubacar Baldé, professor:

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De 1977 a 1980 havia claras perspetivas de desenvolvimento da Guine Bissau. Nesse período, a corrupção era quase nula, porque os servidores do Estado eram escrutinados no seu desempenho.

Hoje, se alguém for nomeado para o desempenho de um cargo, isso constitui, até, motivo de enorme alegria; organiza uma festa entre os familiares porque sabe que lhe saiu a sorte grande, uma vez que espera conseguir tudo enquanto estiver desempenhando funções no Estado. Quando deixa o cargo, sai sem prestar contas, como manda a ética.

Aliás, logo após a nomeação, os próprios familiares aconselham o seu recém-escolhido: “Olha, não és tu que vais construir a Guiné-Bissau. Se não aproveitares esta oportunidade que te caiu do céu, o problema é teu.”

Entretanto, começou-se a perder o controlo do país a partir de 1980 e, com o estabelecimento do multipartidarismo no país e do exercício da democracia plena, na década de 90, tudo piorou.

Existe uma instituição chamada Inspeção Superior de Luta contra a Corrupção mas que, entretanto, desde a sua criação, nunca ouvi ter acusado um único governante ou funcionário do Estado. E questiona-se: será que não existe corrupção? A resposta é só uma: existe, até a olho nu. Afinal, para que serve esta instituição? Isso é gozar com este povo.

Os principais responsáveis por toda esta situação de subdesenvolvimento em que a Guiné-Bissau mergulhou, são os políticos.

Em relação à crise política de que tanto se fala no país, no meu entender, a solução passa pela reconciliação entre o PAIGC e os seus 15 deputados ou, demitir-se este Governo e dar lugar à formação de um novo executivo sob a liderança de um primeiro-ministro não conotado com qualquer partido político.

Fiquei feliz e esperançado quando ouvi o presidente deste partido, Domingos Simões Pereira, dizer que “não há pecado ou culpa que alguém possa cometer que não mereça perdão”, isto significa um sinal positivo para se ultrapassar a crise. Aguardemos que isso venha a acontecer.

Augusto Fernandes: coordenador do poder tradicional

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Estou muito otimista quanto à abertura demonstrada pelas atuais autoridades do país, nomeadamente o Presidente da República, José Mário Vaz e o chefe do Governo, Baciro Djá. Para isso, é importante que haja entendimento entre os políticos.

É verdade que ainda não conseguimos o verdadeiro desenvolvimento da Guiné-Bissau e do seu povo. Depois da independência, tudo voltou à estaca zero, mas temos de acreditar num possível progresso que pode ser alcançado a partir desta legislatura com a implementação da iniciativa chamada Mon na lama.

 

Francisco Benante, ex-presidente da ANP

francisco-benante-gbPara mim, foi uma distorção às conquistas da luta armada e aos símbolos que representam o Estado da Guiné-Bissau a forma como o Governo decidiu realizar o ato central das cerimónias comemorativas do 24 de setembro, no quintal do palácio da República e não em frente ao mesmo, como era habitual.

Na verdade, 24 de Setembro é a data de maior significado e simbolismo de todas as vitórias da luta de libertação nacional. É uma data de todo o povo e é a que vai ficar para sempre, assim como o povo. Só que este ano foi um caso particular em toda a história de celebração desta efeméride.

O palácio da República simboliza todos os órgãos de soberania, tal como o Presidente da República representa o Estado da Guiné-Bissau. Então, a cerimónia comemorativa de 24 de setembro deve ser feita à frente do palácio, porque é ali que também se encontra a Praça dos Heróis Nacionais.

Depois da proclamação da independência em Madina de Boé, de lá para cá nunca as cerimónias comemorativas foram realizadas nas traseiras ou no quintal do Palácio.

Fui convidado para tomar parte, como um estadista, mas, de acordo com o programa que trago comigo, haverá somente um único discurso, que é o do Presidente da República. Como tal, decidi pura e simplesmente não participar da cerimónia. Por tratar-se da festa comemorativa da independência nacional, a toda a franja da sociedade devia ser dada palavra para se expressar.

Há um aspeto que quero deixar claro para a sociedade guineense, que o PAIGC considera o mês de setembro como o mês de todos os acontecimentos importantes, por isso é que o partido apelida este mês de setembro vitorioso.

Entretanto, os palcos montados na sede eram somente para assinalar o setembro vitorioso. Mas quando se fala de 24 de Setembro, todos nós sabemos que é o Estado que deve organizar o ato oficial, portanto, o PAIGC não confunde esse momento com a história.

A independência não é propriedade do PAIGC, apesar de ter sido ele a proclamá-la unilateralmente nas matas do país.

Manuel Serifo Nhamadjo, ex-Presidente da República:

img_9000Sempre que celebramos a data da nossa independência é motivo de muita satisfação, porque faz-nos relembrar que foi neste dia que a Guiné-Bissau conseguiu afirmar-se como um Estado soberano.

Também devemos ter obrigação de refletir melhor sobre os novos desafios do desenvolvimento. Como bem se sabe, o trabalho de construir um país não é nada fácil. Não é em dois nem em 20 anos, mas constrói-se desenvolvendo um processo contínuo.

Este desafio exige de cada filho desta terra maior empenho e maior responsabilidade, de modo a podermos corrigir os erros cometidos, erros que têm fustigado este país.

Neste momento, o país atravessa uma situação difícil na ainda curta história da sua democracia. Mas, como tudo na vida, nunca se consegue atingir o ideal. Apenas conseguimos o que nos for possível, mas este possível é construído, pois nada nos é dado sem sacrifício. O processo de construção deve envolver todos os guineenses sem exceção. Hoje, o país está onde está por erros cometidos por todos nós.

Braima Camará, deputado dissidente do PAIGC:

É uma data histórica e espero que este dia seja um momento de reflexão profunda para os todos filhos da Guiné e para que cada um de nós ponha a mão na consciência sobre tudo o que tem acontecido no país até hoje.

img_8993Portanto, são 43 anos como país independente mas, por outro lado, anos de confusão e instabilidade permanente. Pergunto: o que é que ganhamos com esta confusão? Creio que nada! Então, é chegado o momento de mudarmos este estado de coisas.

Espero que 24 de setembro de 2016 seja um dia que vai acabar com todos os desentendimentos que se tem registado entre os políticos e, também, para que seja um dia de verdadeira reconciliação entre os filhos da Guiné-Bissau.

 

 

Joaquim Batista Correia, deputado do PRS:

O momento é de render homenagem àqueles jovens que decidiram entrar nas matas para lutar pela independência, assim como é um dia de reflexão sobre a atual situação política.

joaquim-batista-correiaPara mim, este é dos momentos mais felizes na história da democracia, porque desde o eclodir desta crise ninguém foi preso, assassinado ou espancado, em total respeito pelos direitos humanos.

Também este dia pode ser o início do fim de toda esta crise, mas sempre na base de um diálogo franco e consensual entre os atores políticos, com respeito escrupuloso pelas leis.

Por: Aliu Baldé e Alfredo Saminanco

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