Circuncisão faz aumentar índice de abandono escolar no Setor de Prábis

O sistema de ensino no Setor de Prábis, Região de Biombo, a 20 quilómetros de Bissau, irá registar, no presente ano letivo 2016/2017, o maior índice de abandono escolar de toda a sua história, com cerca de 35 por cento. A revelação foi feita pelo subdiretor do Complexo Educativo Comandante Hugo Chávez Frías,Daniel Bassanguê.

De salientar que Prábis não tem o nível de décima segunda classe. Sobre estes e outros assuntos relacionados com o ensino no setor, tentámos, sem sucesso, contactar o delegado de Educação na região.

A nível de infraestruturas escolares, o setor conta com cerca de uma dúzia, entre públicas e privadas, dispersas por 26 tabancas, entre os níveis de Ensino Básico Unificado e liceu (11º ano).

O Complexo Educativo Comandante Hugo Chávez Frías, reconstruído e recentemente ampliado, é considerada a escola de referência do setor, com maior número de alunos, atingindo um total de 1.307 alunos, 46 professores e quatro serventes. Conta, igualmente, com todos os níveis possíveis, mas com exceção do décimo segundo ano. Apesar da beleza e possuir novos equipamentos, a sua segurança está entregue à sorte divina, já que não tem nenhum elemento de segurança.

Segundo Daniel Bassanguê, subdiretor do Complexo Educativo Comandante Hugo Chávez Frías, grande parte de alunos da escola que dirige terá abandonado os estudos em busca de locais de circuncisão (fanado), com o propósito de cumprir a tradição.

“Alguns foram a pedido dos pais e outros clandestinamente”, sustentou, salientando que os locais de cumprimento tradicional mais preferido são Biombo, Safim e Setor Autónomo de Bissau, concretamente na zona do Bairro de Bissakil. A regra tradicional de circuncisão obriga os circuncidados a pernoitarem na mata (local da referida pratica) durante um período de 90 dias. Estes locais, normalmente, ficam longe das residências familiares, fora dos circuitos normais de circulação de pessoas e longe da escola.

Para o subdiretor da escola pública de referência do setor, apesar de algumas escolas estatais não haverem aderido à última greve dos professores, como é o caso da escola que dirige, sentiram-se tristes e prejudicados com a fuga dos alunos. Por isso, exorta o Governo a dar mais atenção a esta prática nefasta que afeta o sistema de ensino no país.

Aliás, assegurou também que não aderiram à greve porque a retoma e o percurso das aulas pode vir a estender-se até a época da chuva. Neste período, além de ser difícil a consolidação das matérias, é ainda mais difícil a aderência e permanência dos alunos nas escolas, porque estão sempre a fugir para os campos agrícolas.

Os últimos meses de aulas são sempre um problema no setor, porque grande parte dos alunos interrompe as aulas em favor da atividade agrícola. Além destas, há outras situações e circunstâncias em que a desistência, sobretudo das alunas, estão relacionadas com usos e costumes, como o casamento e o cumprimento dos ritos tradicionais.

Para Belizário Saraiva, presidente do Conselho Técnico Pedagógico de uma das escolas, há um esforço da parte dos responsáveis das mesmas com vista ao cumprimento integral do calendário escolar do atual ano letivo, de acordo com as orientações do Governo, mas as dificuldades que enfrentam são enormes.  Em termos de perspetivas, revelou que Prábis irá solicitar ao Ministério da Educação a implementação da décima segunda classe no próximo ano letivo.

Para Binha Dju, presidente dos alunos do Complexo Educativo Comandante Hugo Chávez Frías, as dificuldades são de vária ordem, a começar pela ausência da décima segunda classe de escolaridade, o que aumenta a apetência para o cumprimento de atos tradicionais, cujo calendário coincide com o período escolar.

Tal facto prejudica, e de que maneira, a frequência das aulas pelos alunos e a falta abusiva de professores nas aulas. Por outro lado, reconheceu que o índice de abandono escolar no presente ano letivo pode vir a superar os anos letivos anteriores. Nesta ordem de ideias, pediu às autoridades competentes para que criem uma lei que proíbe a prática de circuncisão, sobretudo no período de aulas, tendo em conta as suas consequências sobre o futuro dos alunos.

Segundo Binha Dju, em Prábis há escolas que funcionam sem professores qualificados. Por isso, exortou o Governo no sentido de pôr cobro a esta situação.

De salientar que sobre estes e outros assuntos relacionados com o ensino no Setor, tentámos sem sucesso contactar o delegado da Educação na região.

 Texto e foto: Nelinho N´Tanhá

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