Centros de saúde são solução para descongestionamento do Hospital Nacional Simão Mendes

Os centros de saúde do Setor Autónomo de Bissau descongestionam o Hospital Nacional Simão Mendes, de acordo com a política do Governo para esse setor sanitário. Outrora, os pacientes dos bairros periféricos da cidade procuravam o hospital de referência para serem atendidos, mesmo que fosse uma simples assistência de primeiro socorro.

Hoje em dia, nos 10 centros de saúde a nível de Bissau, mais concretamente os de Quelelé, Cuntum, Bandim, Belém, Bairro Militar, Antula, Luanda, Bairro da Ajuda, Plak II, existindo também uma unidade Materno-Infantil, nota-se uma melhoria em termos de prestação de assistência aos pacientes, como também uma maior facilidade na obtenção de medicamentos destinados a doentes carenciados ou momentaneamente carenciados (os que se acidentaram ou enfrentam uma aflição que nem dá tempo para virem munidos de dinheiro).

Caso o doente apresente um quadro clínico grave, é imediatamente encaminhado para o Hospital Nacional Simão Mendes

Para a concretização desta política, o Ministério da Saúde elaborou o primeiro Plano Nacional de Desenvolvimento Sanitário (PNDS) que constituiu, assim, um quadro de referência para as atividades e ações de desenvolvimento sanitário no período de 1998 a 2002. No entanto, devido à crise político-militar de junho de 1998, toda a execução do plano acima mencionado ficou, por um lado, comprometida mas, por outro, manteve o seu caráter de plano estruturante com orientações claras, com objectivos, estratégias e ações devidamente declarados.

No entanto, com a não concretização do primeiro PNDS, preparou-se o segundo designado de fio condutor para que as instituições do Ministério da Saúde, outros organismos e entidades, pudessem assegurar ou contribuir para a obtenção de benefícios no âmbito da saúde.

Condições de funcionamento

Durante a reportagem que realizámos aos 10 centros de saúde a nível de Bissau, constatámos que todos eles iniciam as consultas o mais tardar às 8 horas e 30 minutos, devido a ocorrências registadas pelo pessoal que termina o turno anterior. Inicialmente, os pacientes passam por triagem, onde são feitas as inscrições e, posteriormente, encaminhados para os competentes serviços das especialidades, segundo os sintomas ou queixas que apresentarem, entre as quais a Medicina, Pediatria, Tisiologia, Maternidade, serviços de laboratório, urgência, serviços de nutrição, tratamento e seguimento do VIH, assistente social e planeamento familiar. Em cumprimento da política do Governo, as crianças dos 0 aos 5 anos, idosos, bem como as grávidas, são isentas de qualquer pagamento. Dos 5 aos 15 e dos 16 aos 60, pagam respetivamente 250 e 500 francos CFA. Esse montante destina-se a despesas de manutenção da instituição.

O número de pacientes varia de época para época. No período das chuvas aumenta a procura devido à intensificação do paludismo, que é a patologia que se regista com maior frequência. Em alguns centros, mais concretamente no do Bairro Militar, o número de procura para assistência a crianças chega atualmente à centena, enquanto nos adultos atinge as quatro dezenas.

Diretor do Centro de Saúde de Bandim falando ao nosso microfone

As patologias de maior frequência são o paludismo, a infeção respiratória aguda, diarreia e alguns casos de febre tifóide, hipertensão e diabetes. Os centros de tipo B fazem internamentos, com uma capacidade para 28 camas destinadas tanto para adultos como crianças, enquanto os de tipo C prestam serviço de vela. Realizam, também, testes de despistagem de grávidas e outros serviços. Caso dê positivo, iniciam-se os tratamentos de profilaxia, assim como se a criança nascer seropositiva é tratada conforme indicação médica. Utilizam uma estratégia avançada de prospeção de pacientes, pois existem pais que não levam as crianças ao centro. Esses técnicos vão ao encontro desses pais ou encarregados de educação em cada final do mês, no sentido de controlarem os seus filhos ou educandos. Nestas situações, são descobertas crianças desnutridas em fase muito avançada, assim como outros sem vacinação de rotina. As mães são sensibilizadas a levar os filhos ao centro, no sentido de receberem o devido acompanhamento. O Projeto de Saúde de Bandim também presta assistência a alguns centros às terças e quintas-feiras, para controlar os pacientes recenseados.

Tivemos o privilégio de saber que os estrangeiros que escolheram a Guiné-Bissau como seu país para viver, são as que mais negligenciam a sua colaboração na campanha de imunização e vigilância epidemiológica.

Em termos administrativos, em todos estes centros existem um diretor, um administrador ou administradora, responsável da área sanitária; médico, enfermeiro ou enfermeira-chefe, parteira, exator, pessoal de limpeza e segurança, o que constitui motivo de grande organização.

Inexistência de igualdade do género

A igualdade do género não se verifica no setor da saúde, uma vez que as mulheres constituem o maior número de quadros, entre enfermeiros e pessoal de limpeza. Já na classe de médicos, constata-se o contrário, visto que, em todos centros de saúde do Setor Autónomo de Bissau visitados pela nossa reportagem, verificámos que num total de 20 médicos, só oito são do sexo feminino. Em termos de direção, apenas quatro é que estão sendo dirigidos por mulheres, mas também são as mais organizadas, designadamente dos bairros de Antula, Ajuda, Quelelé e Luanda, variando entre diretoras e administradoras.

Mulheres constituem a maioria no setor de saúde

Segundo uma médica, uma das responsáveis dos centros acima mencionados, liderar não é fácil, uma vez que os homens acham sempre que só eles podem estar à frente de uma instituição. “Se tiverem uma mulher como chefe, tentam desvalorizá-la, procurando argumentos falsos para justificar as suas afirmações, mas comigo isso não funciona. Chego cedo, saiu tarde e faço tudo o que é devido. Ocupo não só da parte administrativa, como dou consultas igualmente.”

As mulheres devem ser perseverantes para com elas mesmas. Vivemos no mundo da concorrência, devemos lutar sempre para estar em lugares de decisão mas, antes, devemos cumprir com todos os requisitos necessários para tal. Não ficar permanentemente a dizer que tenho direito, mas, antes, lutar com vista a conquistar o seu lugar na sociedade.

Apoios do Governo aos centros de saúde

O Governo, concretamente o Ministério da Saúde, apoia os centros em termos de recursos humanos. De resto, são da responsabilidade da direção, pois suportam todas as despesas, entre as quais com os serventes, exatores, assistentes administrativos, seguranças, aquisição de reagentes para o laboratório, medicamentos e alimentação.

Em termos de medicamentos, recebem apoio das ONG AIDA e EMI. Ambas colocam, em todos os centros de saúde, um armário para doentes. O da EMI é para crianças menores de 5 anos e grávidas, enquanto o da AIDA destina-se a pessoas carenciadas.

O programa de luta contra o paludismo fornece, também, testes rápidos e medicamentos para tratamento imediato caso o resultado acuse positivo.

Necessidades primárias

Todos os responsáveis dos centros apontam necessidades de vária ordem, começando pela ampliação do edifício, tendo em conta que o espaço não consegue cobrir as necessidades da população, pois um centro faz a cobertura de muitos bairros e arredores. Alguns precisam de ser ampliados,  já que têm espaço suficiente para proceder ao seu alargamento. Outros, até, carecem de uma nova construção, mudados de raiz, porque já não existe espaço para o alargamento desses edifícios. Enfrentam, igualmente, escassez de materiais diversos como incubadora, microscópio, centrifugadora (aparelho de laboratório que ajuda na separação de partículas em suspensão no sangue); transporte para a evacuação de doentes; recursos humanos, principalmente médicos, uma vez que a Organização Mundial da Saúde recomenda que um médico só pode atender diariamente 10 a 15 pacientes; autoclaves para esterilização de materiais clínicos, incinerador, entre outros.

Em suma, o transporte e aparelhos para testes clínicos são necessidades primárias, pois deparam-se situações de evacuação em casos extremos, assim como da realização de exames, sendo obrigados a transferir os pacientes para um hospital.

Motivação dos técnicos da saúde

A Medicina é uma profissão nobre, mas desmotivante num país como o nosso. No meu ponto de vista, o Estado está a colaborar, por omissão,  para a extinção da profissão. Sinto a Medicina no coração, pois desde pequeno que dizia que gostaria de ser médico, disse o diretor do Centro Materno-Infantil, Evandro Pereira.

O diretor do Centro do Bairro de Belém havia afirmado, durante a nossa conversa, que o setor que o Governo menos investe é na saúde. Emocionado, informou que, enquanto médico da velha geração, recebe um salário miserável, que nem dá para sobreviver.

A medicina exige paciência, tranquilidade e sensibilidade

Noutros centros escutámos a mesma preocupação, da falta de incentivos aos técnicos da Saúde, que dão as suas vidas para salvar vidas, uma vez que são candidatos diretos à contração doenças transmissíveis, pois muitos já perderam a vida sem nenhum apoio do Governo ou Estado da Guiné-Bissau. Mais: enfrentam enormes dificuldades em termos de materiais de prevenção nos seus postos de trabalho. Dando um exemplo disso, um técnico que cuida de doentes com tuberculose e VIH deve usar uma máscara ou outros materiais que os proteja de possível transmissão. Às vezes são obrigados a arriscar e atender os pacientes, uma vez que juraram salvar vidas humanas.

Medicina não é curso para qualquer um, pois exige paciência, sensibilidade e tranquilidade. Entretanto, precisa de uma gratificação e de materiais de diagnóstico para o cumprimento da sua missão.

Reação dos pacientes

Em todos estes centros de saúde, as opiniões divergiram quanto ao serviço de atendimento. Uns dizem que é excelente e outros menosprezaram os esforços dos técnicos da saúde. Um doente seropositivo, que recebe medicamento num dos centros de saúde, enalteceu os cuidados prestados pelos técnicos, pois, graças aos mesmos, conseguiu estar bem de saúde. “Eu era um ‘perdido de vista’, por não ter acreditado que havia tratamento para a minha doença. Mas, graças a Deus e com a ajuda de uma enfermeira, consegui voltar para este centro, tomando medicamento todos os meses e, quando tiver algum problema, informo ao meu médico que me dá orientação devida. Já consegui trazer duas pessoas da minha zona, por ter notado que elas apresentavam os mesmos sintomas que eu. No início tentei convencê-las a ir ao hospital. Uma disse-me que não estava preparada; outra disse-me que ia fazer tratamento tradicional. Só depois de terem visto que iam morrer é que aceitaram tratar-se. Agora estão bem de saúde.”

Pacientes à espera de atendimento

Uma voz contraditória disse que desde cedo que está no centro de saúde com o filho cheio de febre, mas até ao momento da chegada da nossa equipa, não tinha ainda sido atendida. Facto que lamenta, acrescentando que a consulta está a decorrer de forma muito lenta, tendo muitas pessoas à espera, o que se deve, na sua perceção, à limitação do número de médicos.

Apelou ao Governo no sentido de criar condições nos centros de saúde, aumentando a quantidade de médicos com vista a dar resposta às necessidades dos doentes, pois os mesmos não têm condições de se deslocar ao estrangeiro em busca de tratamento. Os nossos hospitais devem estar bem equipados para salvar pessoas carentes.

Comportamento dos moradores para com o centro

Os moradores dos bairros que habitam perto dos centros de saúde, entre os quais de Belém, Bandim e Luanda foram unânimes em agradecer a Deus pela sorte de estarem perto de um centro de saúde, interagindo com os médicos e enfermeiros, mesmo que não tenham dinheiro são atendidos na mesma, prometendo pagar quando tiverem possibilidades. Infelizmente, a estes deparam-se enormes dificuldades em termos de luz e água. Às vezes, os do turno da noite, trabalham à luz das velas quanto não há corrente elétrica, facto que constitui enorme perigo para os doentes, assim como para os técnicos da saúde.

Uma moradora do Bairro de Belém informou que eles são parceiros dos centros, pois dão ajuda na medida do possível em termos de limpeza e evacuação de lixos. Mas há outros vizinhos que aproveitam a escuridão para deitar lixo na valeta e fraldas dentro do quintal do centro. Comportamentos do género envergonham a comunidade. “Nunca vamos desistir de apelar aos mesmos para que mudem de comportamento, evitando tais práticas, porque temos noção de quem são essas pessoas mas, por hora, não as identificaremos chamando os seus nomes.”

Uma pessoa deve saber cuidar primeiro da sua casa, para depois cuidar de outros lugares. Infelizmente, há gente que não entende isso.

Texto e fotos: Elci Pereira Dias

 

 

 

 

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