Centro de Saúde de Bissorã incapaz de suportar desafios sanitários do setor

Teresa Embaná, administradora do Centro

O Setor de Bissorã é considerado como um dos mais populosos a nível do país, com um número de habitantes estimado em cerca de 60 mil e uma superfície de 1.200 km 2, distribuído por 174 tabancas. O setor está a ser fortemente ameaçado pelo êxodo rural e está a ficar cada vez mais isolado devido ao abandono da sua população por causa da  existência de órgãos de Estado sem expressão para o normal funcionamento das instituições ali  presentes.

O centro da cidade (praça) está quase deserto devido ao avançado estado de degradações das infraestruturas administrativas e algumas casas destinadas a residências tanto dos funcionários ali colocados como da própria população . Para além deste facto, a erosão está a deixar as ruas e as estradas intransitáveis.

É o setor cuja população é de predominância mandinga e balanta. Segundo uma história narrada ao repórter de “Nô Pintcha” por um autóctone, o nome de Bissorã proveio do dialeto mandinga que significa extração de vinho palma.

O nome surgiu quando os colonialistas portugueses chegaram àquela vila nortenha do país e encontraram somente mulheres e daí terem perguntado se não havia homens na localidade, ao que elas responderam em dialeto mandinga “bita soró”, o que significa foram extrair vinho de palma, sendo essa expressão interpretada pelos colnialistas por Bissorã. Foi assim que o nome surgiu e ficou até aos dias de hoje.

Bissorã, hoje, segundo relato de alguns populares, está a transformar-se num santuário de impunidade, o que tem motivado o aumento de índice de criminalidade, de violação dos direitos humanos e de outras práticas nefastas.

O setor vive perante a insuficiência de quase tudo e em todas as áreas, começando pelo hospital, esquadra de polícia, fornecimento de eletricidade, mercado, centro de formação técnico-profissional, lugares de lazer para a juventude, estradas que ligam a cidade às tabancas e demais outras localidades.

A maior preocupação dos populares de Bissorã, neste momento, reside no Centro de Saúde que não dispõe de capacidade para fazer face aos desafios sanitários do setor, devido à sua dimensão geográfica, pois trata-se de um centro de saúde de tipo B.

 Saúde

 Este setor, considerado como um dos maiores a nível da Guiné-Bissau, não dispõe de um hospital, dependendo apenas dos serviços prestados pelo centro saúde que, dada a sua especificidade, não consegue fazer face aos desafios sanitários da zona.

Um centro de saúde apenas dotado de menos de 20 técnicos para todos os serviços e com uma capacidade de 16 camas para internamento de doentes, num setor cuja população é constituída por cerca de 60 mil habitantes.

Segundo dados reportados, há períodos em que se verifica uma maior procura de doentes, que são obrigados a levar esteira ou tendas de campanha para ali ficarem internados.

Para além destas limitações, o centro enfrenta a falta de medicamentos, de luz elétrica e da água potável. Para atendimento de pacientes no período da noite, são obrigados a recorrer a alternativa, na base da utilização de uma bateria de automóvel para obter iluminação. Quando a bateria fica descarregada, trabalham à luz das lâmpadas de mão ou de telemóvel.

Como forma de minimizar alguns problemas no domínio da saúde, a associação dos naturais e amigos do setor de Bissorã decidiu, voluntariamente, mobilizar toda a comunidade para a construção de dois blocos no espaço ocupado pelo centro, a fim de reduzir o sofrimento dos utentes que ali se deslocam à procura de cuidados médicos.

O repórter constatou uma situação bastante preocupante e lamentável, em que ladrões levaram dois painéis solares e arrancaram a porta do edifício que alberga os serviços da maternidade. Entretanto, esta unidade mantém-se a funcionar sem a porta roubada.

Devido à falta de edifícios, os doentes de tuberculose e outros compartilham o mesmo espaço e até a comida, o que poderá provocar a transmissão e a propagação desta doença no setor.

Em entrevista concedida ao “Nô Pintcha”, a administradora do Centro de Saúde, Teresa Luís Embaná, informou que trabalham com enormes dificuldades, desde a falta de pessoal, de infraestruturas, de medicamentos, de luz e água. Mas, para ela, neste momento a prioridade  é a construção de um muro para evitar a entrada arbitrária das pessoas, bem como evitar roubos de que o centro tem sido alvo.

Esta responsável disse que o centro precisa de ser ampliado a fim de responder às necessidades da população. Na explanação feita por Teresa Embaná, o Centro de Saúde é muito pequeno e não responde ao número de habitantes daquela localidade, pelo que é urgente transformá-lo em hospital regional.

Teresa Embaná pediu ao Ministério da Saúde Pública para que afete o centro com, pelo menos, mais três médicos, a fim de evitar a pressão sobre um único médico de que dispõe o setor. No seu entender, é saturante para um especialista atender todos os dias mais de 60 pessoas, pelo que se torna urgente debelar esta situação.

“Solicitei, igualmente, que seja construída uma vedação ao recinto do centro, pela simples razão de evitar a permanência de pessoas que ali se deslocam quando acontece um acidente de viação, pela simples curiosidade  de ver as vítimas, acabando por colocar em causa o atendimento de pessoas acidentadas. Nós, muitas vezes, recorremos à Polícia da Ordem Pública para retirar do interior das instalações as pessoas, como forma de evitar constrangimentos que possam colocar a vida dos acidentados em perigo”, salientou.

Teresa Luís Embaná mostrou que as receitas arrecadadas pelas consultas realizadas é como uma gota de água no oceano e que, portanto, não conseguem cobrir as despesas de que necessitamos cobrir, facto que os deixa muito limitados em termos financeiros para fazer face aos problemas que se lhes deparam. De acordo com a explicação desta responsável, a única cobrança que se faz é resultante das consultas que fazem, porque a restante prestação de serviços é feita a título gratuito.

Por seu turno, o enfermeiro, Lupusnio Januário Mané, reconheceu, de facto, que o centro é muito pequeno em termos de espaço para fazer face a tanta procura da população. Perante este desafio, só conseguem fazer o que estiver ao seu alcance.

Comungou da mesma ideia a administradora, que aponta para  ampliação do centro ou transformá-lo num hospital regional, como forma de superar as dificuldades sanitárias que se verificam no local, recomendando o aumento do número de técnicos.

“Se estiver cá na segunda-feira, ou em qualquer dia útil da semana, vai encontrar um número considerável de pessoas à procura de consulta e, como tal, isso torna-se desgastante para um profissional da saúde”, lamentou.

Afinando pelo mesmo diapasão, o vice-presidente da Associação de Naturais e Amigos de Bissorã, igualmente presidente de Liga dos Direitos Humanos na Região de Oio, Umaro Camará, disse que a ideia de construir dois blocos no Centro de Saúde surgiu exatamente da necessidade de descongestionar a aglomeração de pessoas e criar mais espaço no sentido de responder às preocupações da população local.

Vice-presidente da Associação de Naturais e Amigos do Setor de Bissorã, Umaro Camará

Neste sentido, o vice-presidente garantiu que, mesmo sem apoio do Governo central ou local, as obras serão concluídas. Na explicação que deu, desde o início das obras as autoridades setoriais em nenhuma circunstância apoiaram a execução desses trabalhos, pois tudo quanto está a ser desenvolvido é graças à contribuição da comunidade local. Mas nem todas as famílias deram o seu contributo.

Disse, ainda, que o único apoio que receberam até ao momento veio do Ministério da Mulher, Família e Coesão Social, que ofereceu 39 sacos de cimento, tendo contado, igualmente,  com o apoio em combustível da Associação de Consumidores de Água e do cidadão  Fernando Dias, natural da vila, que contribuiu com um valor de 150 mil francos CFA.

“De facto, decidimos construir estes dois blocos porque temos assistido aqui a cenas revoltantes, onde os doentes são obrigados a permanecer nas varandas ou no recinto do centro, por não haver espaço no interior para o seu internamento. Entretanto, vendo que esta situação não podia continuar, tivemos a iniciativa de, através da nossa associação, mobilizar todo o setor para criar uma alternativa, daí ter nascido a ideia de construir aqueles dois blocos cujas obras encontram-se em fase bastante avançada. Se tudo correr como está previsto, até ao final deste ano elas serão entregues” prontas a ser utilizadas.

Para além da obra de alargamento do centro, Umaro Camará disse que a sua organização desenvolve várias atividades em prol do desenvolvimento do setor como, por exemplo, a evacuação de lixo, limpeza e eliminação de buracos nas estradas e nas ruas da cidade para facilitar a circulação de motorizadas e carros.

Bissorã berço da impunidade

 No que toca à delinquência juvenil no setor, Camará disse que é idêntica em todas as outras localidades do país e, se calhar, semelhante  a Bissau, porque viajam para diferentes cidades e trocam impressões sobre vários assuntos.

Reconheceu que, na verdade, regista-se um aumento de vícios por parte de jovens, principalmente adolescentes, facto que está a repercutir negativamente na sociedade. Segundo explicação de Umaro Camará, o consumo de droga de tipo liamba está praticamente liberalizado em todo o território nacional.

De acordo com este responsável, regista-se uma acentuada degradação de valores morais e éticos no setor que, outrora, eram tidos como um dogma. Nota-se, atualmente, que não se observa o mínimo respeito pelos mais velhos, assim como com as autoridades. Tudo isso é consequência da má orientação que está  a ser incutida na juventude.

No entender de Uamaro, há só um responsável para esta situação:  o Estado, que deve assumir a sua responsabilidade para inverter este mal que está a fustigar a sociedade guineense, em geral, porque, se não, daqui a 40 anos, se a situação se mantiver, o país terá problemas de liderança e de pessoas que irão assumir o destino do povo.

O presidente da Associação de Naturais e Amigos de Bissorã disse que orientar a juventude passa, necessariamente, por investir seriamente na educação, bem como estimular as pessoas para que procurem a escola a fim de ganhar conhecimentos.

Em relação ao problema dos direitos humanos no setor de Bissorã, de facto não se pode escamotear a verdade, porque é considerado como o santuário de vários tipos de criminalidade.

Umaro Camará disse que tudo o que acontece não é por não haver esforço da parte das entidades que trabalham no setor e que estão ligadas à matéria dos direitos humanos, tais como organizações vocacionadas a essa problemática, dizendo que, com o passar dos tempos, este fenómeno vai ser ultrapassado, porque trata-se de um aspeto de foro de consciência.

No que toca ao casamento precoce e forçado, estão a trabalhar juntamente com as autoridades judicial e policial para inverter a pirâmide que, de facto, estão a reduzir drasticamente no setor.

Explicou que esta é uma prática secular e que, por isso,  combatê-la e eliminá-la torna-se imperioso um trabalho de sensibilização sério junto das comunidades, sobretudo um trabalho de inteligência para fazer com que as população aceitem abandonar estes métodos.

“Hoje já se verifica raparigas a reclamarem quando não concordam com um certo casamento. Isso deve-se ao trabalho que está a ser feito”, mostrou.

Um outro problema crónico que se observa no setor de Bissorã é a disputa sobre a posse de terras, roubo e furto de gado, principalmente no período das chuvas. Segundo este dirigente, há vários casos no tribunal setorial que, até ao momento, não foram resolvidos e que ele, como defensor dos direitos humanos, com eles não compactua, porque isso faz com que a população deixa de acreditar nas instâncias judiciais.

Portanto, a lentidão da justiça em Bissorã já provocou muitos casos de conflito que acabaram por refletir negativamente na relação entre as diferentes tabancas e pessoas.

De acordo com Umaro Camará, em 2014, uma senhora foi violada e violentada até à morte, constituindo um acontecimento que chocou a comunidade local. Mas este caso encontra-se na justiça a espera a sua conclusão. Existe também um outro caso, do cidadão Tchutcho Mendonça, que foi espancado pela polícia na prisão até à morte, cujos autores foram julgados e condenados, mas que continuam a andar pelas ruas de Bissorã.

Perante toda esta situação, o ativista aconselhou aos populares do setor a não fazerem justiça pelas próprias mãos.

Poder local

 Finalmente, o administrador do Setor de Bissorã, Fidel António da Silva, reconheceu os esforços empreendidos pelos técnicos do Centro de Saúde no atendimento de uma população de cerca de 60 mil habitantes, assegurando que é urgente afetar o setor com um hospital capaz de dar resposta aos problemas sanitários na zona.

Administrador do Setor de Bissorã, Fidel António da Silva

O administrador disse que é lamentável a situação que se vive no centro e que, para além de ser pequeno também enfrenta grandes dificuldades em todos os domínios, solicitando ao Ministério da Saúde Pública que preste mais atenção ao centro daquela localidade.

No que toca à impunidade, Fidel António da Silva defendeu que, desde que assumiu a administração do Setor de Bissorã não teve conhecimento de nenhum caso de impunidade. E nunca sabe se algum polícia chegou a ser julgado e condenado, continuando impune pelas ruas da vila.

Porém, deixou claro que em nenhuma circunstância se compactuou com a violência porque, se assim fosse, jamais consentiria que a impunidade reinasse na sua administração.

Fidel da Silva realçou o papel que as autoridades policiais e judiciais têm vindo a desenvolver no combate à criminalidade e outro tipo de práticas nefastas.

Alfredo Saminanco

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