Bolama entre ruínas e esperança de tornar-se numa zona franca

Avenida Amílcar Cabral – via principal da cidade

A maravilhosa cidade de Bolama situa-se na ilha considerada “mais continental” do arquipélago dos Bijagós, dada a sua proximidade ao continente. Bolama foi elevada à categoria de cidade em 1813 e designada capital da então Guiné Portuguesa em 1879. Até 1941 manteve o estatuto de capital, funcionando como sede da administração colonial portuguesa.

A 19 de dezembro de 1941 a capital da ex-Guiné Portuguesa foi transferida de Bolama para Bissau devido à construção e surgimento de novas infraestruturas nesta última cidade. Ainda no séc. XIX, o Reino Unido tentou a ocupação territorial de Bolama, dando origem a uma disputa entre Portugal e o seu secular aliado, que só não resultou em conflito militar graças à intervenção de António José de Ávila (duque de Ávila e Bolama), que recorreu à intervenção de Ulysses S. Grant, presidente dos Estados Unidos, que advogou a favor de Portugal, assegurando à Coroa Portuguesa a posse de Bolama.

A ilha alberga praias paradisíacas, com potencial para o desenvolvimento de inúmeras atividades na área do turismo. A ilha de Bolama, que dista de Bissau a escassas duas horas e meia a três numa viagem de barco; a 30 minutos numa vedeta ou lancha rápida e a 10 minutos apenas se for de avioneta, conheceu o seu declínio a partir dos finais da década de 30 e início dos anos 40 do século XX. Hoje, Bolama encontra-se abandonada à sua sorte, tornando-se numa cidade desprotegida, onde as marcas coloniais foram fortemente atingidas com o passar dos tempos, restando das suas estruturas apenas a memória de quem conhecia a terra do tio Lúcio da Silva e Paulo Caiango.

Uma ilha em expetativa

Nos últimos anos, a ilha tem merecido a atenção e cobiça vindas de muitas empresas multinacionais a querer transformá-la numa zona franca de alto rendimento económico regional.

João Pereira, secretário Administrativo do Setor de Bolama

Depois da intenção manifestada pelo empresário guineense Paulo Barros, representante de uma empresa internacional interessada na exploração daquela maravilhosa ilha, desta vez são os alemães da Westafrika que manifestaram a intenção de, num período de três anos, transformar Bolama num outro Dubai.

Segundo o secretário administrativo do Setor de Bolama, uma delegação alemã do Grupo Westafrika esteve recentemente na cidade para uma visita de trabalho, na sequência de uma proposta entregue ao Governo central em Bissau.

João Pereira disse que a delegação esteve acompanhada de técnicos do Ministério das Obras Públicas, da Direção-Geral do Cadastro, cujo relatório da missão devia ser apresentado ao executivo de Bissau.

Este responsável anunciou que, no passado mês de abril, uma outra equipa esteve reunida com as autoridades locais, reafirmando mesmo a decisão do grupo em investir no projeto de transformar a ilha numa zona franca.

De acordo com o nosso entrevistado, a proposta do grupo foi analisada e concluiu-se que é um projeto que trará múltiplas vantagens para Bolama, não pela sua posição geográfica, mas sim pelo volume de investimento que se pretende fazer. O plano integra a construção de infraestruturas, criação de postos de trabalho, melhoria de condições de vida das populações, nomeadamente a eletrificação da cidade, construção de estradas, hotéis, condições de funcionamento do hospital regional, bem como construir uma ponte para ligar Bolama a São João.

Informou que o projeto contempla a construção de um porto de águas profundas que irá permitir a movimentação de navios de grande porte, permitindo um abastecimento permanente ao mercado de países membros da União Económica e Monetária da África Ocidental, UEMOA, em que os atores económicos vão poder desenvolver a sua atividade beneficiando de maiores facilidades. O projeto proporcionará a criação de 50 mil postos de trabalho, sendo uma boa parte destes postos a ser preenchida com mão-de-obra qualificada e especializada, embora os bolamenses não estejam capacitados para corresponder à elevada oferta de emprego.

João Pereira disse que estão a aguardar, a nível do governo, a última resposta que viabilizará todo este projeto e esperar que sejam criadas condições da sua realização, pelo menos, em finais de julho. Isso tudo será exequível com a criação, pelo Governo, de um gabinete para zonas francas, que será dirigido pelo Ministério das Finanças, para que Bolama se enquadre nos parâmetros de desenvolvimento, num horizonte temporal de três anos. Entretanto, a seleção de mão-de-obra qualificada vai começar dentro de três meses, conforme as necessidades das áreas de formação. Aliás, o grupo prometeu abrir, ainda no decurso deste ano, em Bolama, três faculdades de formação em diferentes domínios.

Símbolo do poder em ruína

Hospital Solidariedade chegou de ser um centro de referência nacional e regional

O secretário administrativo do Setor de Bolama felicitou o “Nô Pintcha” pela oportunidade que lhes deu para falar sobre a política de desenvolvimento da cidade de Bolama. João Pereira disse que Bolama está enquadrado num plano estratégico regional mas que, devido à atual crise política institucional, não foi possível dar início à sua implementão. A nível setorial, apontou o projeto de eletrificação das principais avenidas da cidade através da colocação de painéis solares. Para zonas periféricas da cidade, precisam-se de, pelo menos, 10 mil metros de cabo e fio para fazer a cobertura dessas áreas.

A central elétrica de Bolama está tecnicamente operacional, só que não funciona por causa da falta de cabos e fios elétricos roubados em toda a ilha pelos próprios bolamenses, pelo que aguardo a todo o momento o apoio prometido por alguns parceiros para que se possa lançar cabos onde forem necessários e fornecer energia elétrica às populações.

“Estamos fortemente empenhados e a trabalhar para que Bolama faça jus ao título de património mundial atribuído pela UNESCO. Entretanto, estamos a desenvolver esforços no sentido de conseguir parceiros que possam ajudar-nos em meios de transporte que façam a ligação Bolama-Bissau e vice-versa”, indicou.

Pereira acrescentou que uma equipa técnica das Obras Públicas esteve em Bolama a proceder ao levantamento para a elaboração de um projeto de alcatroamento de 25 quilómetros de estradas a nível da cidade, projeto esse anunciado em Bafatá pelo Primeiro-Ministro, no âmbito da Presidência Aberta realizada no Leste do país.

Por outro lado, disse que foi prometido pelo Chefe de Estado, na sua recente passagem por Bolama aquando da Presidência Aberta, de que assumiriam a reabilitação do Palácio do governador, que também serviu de local de alojamento aos hóspedes.

Escassez da água potável

Bolama enfrenta problemas sérios de falta de água potável. João Pereira disse que existe uma parceria do projeto de pesca com a ONG AIDA para o fornecimento de água potável, através de um reservatório com a capacidade de 15 mil litros, capaz de abastecer toda a cidade.

Acontece que, há dois anos, algumas pessoas organizaram um roubo no fontenário de “N’tatchá” e levaram todos os painéis solares que asseguravam o bombeamento da água e, até hoje, as autoridades policiais não foram capazes de descobrir os seus autores. João Pereira manifestou-se preocupado com a escassez da água na ilha, associada ao número da população que aumentou durante a campanha de caju, receando por anomalias que venham a verificar-se.

Comércio sem ritmo

O máximo responsável setorial admitiu que naquela ilha não há grande afluência de negociantes ao mercado principal, o que contribui negativamente para a fraca arrecadação de receitas proveniente do movimento comercial.

Outrora, quando a atividade piscatória funcionava, conseguia-se recolher algo em termos de receita municipal proveniente de cobranças sobre quem negociava os seus produtos no mercado.

Hoje, um exíguo número de pessoas (cerca de uma dezena) opera no mercado principal como pequenos comerciantes, registando-se um número mais elevado no chamado mercado de caju, aproximadamente umas 50 vendedeiras, que asseguram o funcionamento desse mercado. Porque, segundo João Pereira, em Bolama quase toda a gente tem o hábito de cultivar hortaliça para a sua autossuficiência.

A receita resume-se, praticamente, à proveniente dos cacifos e tabernas que proporcionam algo por alturas da campanha de comercialização da castanha de caju, com a qual se consegue cobrir as necessidades mais prementes e fazer face a despesas de funcionamento da administração.

Peixe – suposto diálogo peixe-população

João Pereira disse que aquando da Presidência Aberta, conduzida pelo Chefe de Estado, houve queixas sobre a falta de peixe de qualidade no mercado local, ao ponto de Jomav lançar aos bolamenses, ironicamente, a seguinte pergunta: “Quereis que o peixe venha ter convosco, pedindo-vos que os apanhem?” De facto, na opinião de João Pereira, “o nosso mar tem peixe de toda a espécie, do qual podemos pôr e dispor dele.

Instalações do antigo Banco Nacional Ultramarino na época colonial – hoje tornou-se num bosque

Um outro aspeto levantado pelo responsável administrativo tem a ver com as receitas provenientes das pescas que, na totalidade, são utilizadas pelo Governo central, quando uma parte podia ser colocada em favor da população.

Os habitantes de Bolama poderão, igualmente, ocupar-se não só da atividade pesqueira como, também, na reabilitação das ruas que se encontram em estado muito lastimável.

As valetas destinadas à drenagem de águas pluviais e as casas bastante antigas, que datam do tempo dos colonos, tudo estão a precisar de reabilitação.

Pereira disse que a ilha enfrenta outra periclitante situação que é as estradas da Secção de São João. Informou que a ONG FIDA esteve no local a proceder ao levantamento e cálculos para reabilitar a estrada que liga o porto de Enxudé ao porto de São João, mas que até hoje nada se sabe em concreto em relação a esses estudos. Sabe-se que é uma organização que dispõe de meios financeiros para custear a reabilitação de algumas pistas rurais na Região de Quínara e Tombali, da qual a Secção de São João faz fronteira.

O “deixa andar” dos jovens

Em relação à força motriz, o secretário administrativo é da opinião que, até certo ponto, a juventude parece não ter ainda acordado, tendo atitudes do “deixa andar”.

“Não estou de acordo com essas insinuações. Claro que existe, em determinados momentos, uma certa frustração em determinada faixa etária que quer sobressair-se como político e, quando assim é, então reagem perante certas situações”, acusou JP, sigla da qual é mais conhecido na ilha.

“Há poucos dias um grupo de jovens assaltou a residência de um mauritano, na qual roubaram dinheiro e castanha de caju. Isto é sinónimo de falta de segurança. Os agentes da Polícia aqui colocados já deviam ter passado à reforma por já não conseguirem responder às exigências atuais”, indicou o secretário administrativo.

Por outro lado, disse ter entregado ao ministro de Estado e do Interior, Botche Candé, uma lista de mancebos aqui residentes e que já tinham sido alistados, a fim de poderem ser preparados e colocados na esquadra de Bolama, o que poderá contribuir na mudança de comportamentos se forem bem treinados. Porém, até agora não houve resposta por parte do ministro de Estado e do Interior, pelo que continuarão a aguardar por decisões superiores.

Finalmente, JP exortou o Governo central a ter paciência e calma no cumprimento da sua missão e, ao Presidente da República, enquanto “Pai da Nação” guineense, aconselhou a não dar ouvidos a ninguém, apesar de o país estar a atravessar uma situação política bastante difícil. Por outro lado, defendeu que só assim é que a Guiné-Bissau poderá, realmente, conhecer melhores dias.

Texto e fotos: Seco Baldé Vieira

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