Administração de Prábis com enormes dificuldades para projetar o desenvolvimento

“Queremos, estamos com vontade e a trabalhar para o desenvolvimento do Setor de Prábis, mas as dificuldades são enormes e há falta de quase tudo, desde financiamento económico e materiais para os projetos”, disse ao “Nô Pintcha”, Joãozinho Có, administrador do setor.

A 20 quilómetros de Bissau fica situado o Setor de Prábis, concretamente na Região de Biombo, cuja capital é Quinhamel Uma região com cerca de 93.039 habitantes, cobrindo uma área de 838 quilómetros quadrados (dados estatísticos de 2009).

A região é maioritariamente habitada pela população da etnia papel, com 64,7 % e a balanta com 19,4%. Os autóctones das etnias sosso e saracolé ocupam, ambas, 0,1 por cento do total dos habitantes.

Quanto a confissões religiosas, os animistas representam a maioria da população com 40,1%, os cristãos com 30,2% e os muçulmanos ocupam uma faixa relativa a 3 por cento.

Administrativamente, o setor conta com uma estrutura dirigente denominada Comité de Estado, residência do administrador, ambas renovadas e sem equipamentos de trabalho. O setor tem uma esquadra de polícia, um centro de saúde e conta com estabelecimentos de ensino público e privado a nível do primeiro ao décimo anos.

O setor dispõe também de espaços de lazer para todas as idades, desde campos de futebol e praias, destacando-se entre estas a “praia de suru”. É uma zona virgem, com plantações de cajueiros. Tem potencial, igualmente, para possíveis atividades turísticas. O setor é uma das zonas responsáveis pelo abastecimento do mercado de Bissau, com produtos hortícolas, castanha de caju, peixes de diversa variedade como esquilons, bentaninhas, que são transportadas por mulheres horticultoras e comerciantes.

Segundo Joãozinho Có, administrador colocado desde 2012, Prábis está a crescer a um ritmo acelerado, tanto a nível de infraestruturas, assim como populacional. O que lhe obrigou a traçar um plano urbanístico, uma meta e um desafio de projetos de desenvolvimento para o setor, sendo um dos mais próximos da capital Bissau.

Confessou que não tem sido tarefa fácil, na implementação de projetos devido, sobretudo, a problemas de conflitos provenientes de hábitos de usos e costumes tradicionais.

Realizações

A administração local, com o apoio dos parceiros de desenvolvimento, já proporcionou à comunidade mais de meia dúzia de infraestruturas escolares de qualidade, construídas e distribuídas no centro e nas secções como Quessete, Cumura, Matandim e Bor, respetivamente.

Igualmente, a administração atual autofinanciou a reabilitação de todas as infraestruturas do Estado, a começar pela residência do administrador, Comité de Estado e ampliação do Centro de Saúde. Recuperou, igualmente, a pista rural que liga o centro do setor com outras zonas mais longínquas como Cumura, Pefini, Areia e de Pescador. Além de mais de meia dúzia de furos de água potável, que beneficiou a comunidade nas diferentes zonas.

Através de um projeto denominado projeto de desenvolvimento dirigido pelas comunidades, a administração está a trabalhar no processo de alcatroamento de cerca de sete quilómetros de estrada que ligará Prábis a Bissau.

Apesar do esforço, Joãozinho Có manifestou o seu desagrado pelo facto de o progresso de Prábis ter estado a ser conotado com a evolução de outras seções. A título de exemplo de Cumura de Padre, cuja maior parte das infraestruturas como escolas e centro de saúde, ficam distantes e funcionam em autogestão, o que torna difícil para a nossa comunidade.

Em perspetiva, além do projeto de plano urbanístico em andamento, prevê-se a construção de uma biblioteca para os alunos, com dotado dos respetivos equipamentos, desde livros e instalação de internet. O objetivo é facilitar os alunos e ligar a comunidade local com o mundo.

Posse de terra

Em comparação com outros setores e seções da Região de Biombo, nomeadamente Quinhamel, Safim, Bor e Péfini, o Setor de Prábis regista mais casos de conflito de bolanhas destinadas à prática da agricultura do que guerras por posse de terras para construção de casas. “Há desafios enormes que o setor enfrenta. Entre os mais notórios destacam-se problemas de compra e venda de um terreno por vários compradores”, frisou. Salientou que foi sempre bafejado pela sorte, principalmente na resolução de conflitos de posse de terra, sobretudo de bolanhas, já que as partes saem satisfeitas dos litígios.

Segundo Marvana Nanque, secretário da Associação dos Filhos e Amigos de Prábis (AFAP), as disputas por posse de terra são mais frequentes entre a etnia papel, considerada maioria e tida como dona do Setor. Esta, tradicionalmente, após a morte de um varão de determinada família, um ancião, ligado a esta linhagem, é indicado para herdar todos os bens da família, incluindo os materiais e as famílias do ente querido, desde mulheres até aos filhos.

A propósito, o secretário da AFAP assegurou que a organização já está a trabalhar na monitorização de bolanhas em estado de degradação, assim como na identificação de conflitos existentes. Sempre que identificam contendas, apresentam-nas às autoridades competentes para as dirimir. Neste sentido, reconheceu e realçou o empenho dos representantes do Estado.

A tradição de herança já não agrada, sobretudo entre a maioria dos filhos dos falecidos, principalmente os jovens mais entendidos, com destaque para os escolarizados. Para Paulo Có, 22 anos, com o nono ano de escolaridade, defendeu que o referido hábito está ultrapassado e vai contra as normas, restringe as esperanças e viola todos os direitos de herança, porque só beneficia o terceiro.

“A questão de herança é um problema que afeta negativamente o desenvolvimento da minha etnia e da própria região. Aqui, em Prábis, por exemplo, muitos abdicam de coisas de luxos, porque entendem que não vale a pena trabalhar ou gerar bens para terceiros. Isso dói. Se depender só de mim, as práticas como estas devem ser banidas na minha etnia. Isso não significa que não gosto de ser papel. Tenho orgulho em pertencer a esta etnia, que conserva a cultura dos nossos ancestrais”, rematou Paulo Có.

Do seu ponto de vista, esta e mais outras práticas constituem um dos motivos de empobrecimento de grande parte de pessoas na etnia. “Há despesas exageradas no cumprimento de certas práticas tradicionais e socioculturais, como é o caso de toca-tchor, catandeira e outros”, fundamentou.

Água salgada provoca fome em Prábis  

Mais de 30 hectares de parcela de bolanhas estão atualmente inundadas de água salgada no setor. Está situação tem provocado fome em muitas famílias agrícolas, segundo alertou o administrador do setor. Quase 100 por cento das famílias vive da agricultura e depende do arroz, produzido nas vastas bolanhas existentes no setor.

Apesar do esforço visível e reconhecido das mulheres horticultoras, apoiadas pelas ONG, associações locais, Governo e outros parceiros, que ajudam na mobilização e disposição de cimentos e materiais, ainda assim elas lamentam e confessam a falta e a incapacidade de cobrir as lacunas deixadas pelas bolanhas salgadas com a invasão das águas do mar.

Saúde

A administração disponibilizou fundos para a ampliação do Centro de Saúde, cujas obras encontram-se já em acabamento. O novo edifício irá contar com uma sala para consultas médicas, um quarto e uma casa de banho destinada aos técnicos da área. Contará também com um banheiro para os doentes e para os médicos, uma farmácia e um escritório.

Apesar da dinâmica da administração local, o Centro de Saúde de Prábis não tem ambulância nem médico. A falta destas peças fundamentais obriga os familiares dos pacientes a pagar entre 3 a 5 mil francos CFA para a evacuação de doentes com patologias complexas que se dirigem para os hospitais de Bissau ou de Cumura.

A adesão da comunidade ao hospital tem sido fraca porque muitos são animistas e apostam mais em tratamentos tradicionais feita pelos curandeiros e feiticeiros locais.

A este respeito, o secretário da AFAP, Marvana Nanque, garantiu que a comunidade, através da associação local e com a orientação dos responsáveis da área, atua na sensibilização sobre as boas práticas da saúde e na importância de frequentar o hospital. O que, segundo ele, tem motivado a mudança de comportamentos e a procura, das pessoas, pela assistência hospitalar.

O serviço integral de manutenção de saúde da comunidade no setor, segundo a responsável da área sanitária de Prábis, está entregue apenas a cinco enfermeiros, duas parteiras e um contínuo que prestam assistência a mais de 11 mil pessoas, espalhadas por 26 tabancas e distribuídas em sete eixos.

Alunos exortam implementação do 12º ano

A falta de implementação do nível de décimo segundo ano no sistema do ensino do setor está a condicionar negativamente o processo de aprendizagem de muitos alunos, na sua grande maioria sem condições para se sustentarem quando procuram o liceu em Cumura ou em Bissau.

A nível de infraestruturas escolares, Prábis possui cerca de uma dúzia de estabelecimentos, entre públicos e privados, espalhados por 26 tabancas, com níveis do primeiro ao décimo primeiro ano.

O Complexo Educativo Comandante Hugo Chávez Frías, reconstruída e recentemente ampliada, constitui a escola de referência, albergando maior número de alunos, num total de 1.307, 46 professores e quatro serventes. Leciona os níveis do primeiro ao décimo primeiro ano. O complexo é bonito e bem equipado, mas a sua segurança está entregue à sorte divina, já que não tem ninguém para garantir a segurança desse estabelecimento.

Segundo Daniel Bassanguê, subdiretor do referido complexo escolar, revelou que muitos alunos abandonaram a escola com o propósito de ir cumprir a tradição de fanado (circuncisão) e alguns para participarem na campanha de caju.

“Alguns foram a pedido dos pais e outros clandestinamente”, sustentou, salientando que há escolas, como aquela que representa, não aderiram à última greve dos professores, mas isso não impediu a fuga dos alunos. Por este motivo, exortou o Governo no sentido de traçar estratégias para por cobro a esta situação, defendendo o sistema do ensino e o futuro do país.

Aliás, explicou também que não aderiram à greve porquem, quando chegar a época das chuvas, isso tornaria “muito” difícil a consolidação das matérias. Será ainda mais difícil porque, no período das chuvas, a permanência dos alunos nas escolas é quase impossível, porque eles abandonam para ir participar na lavoura dos campos agrícolas.

Além destas, há outras situações e circunstâncias em que a desistência, sobretudo das alunas, estão relacionadas com usos e costumes, como o cumprimento de casamento e rituais tradicionais.

Para Belizário Saraiva, presidente do Conselho Técnico Pedagógico de uma das escolas, há um esforço da parte dos responsáveis das mesmas para o cumprimento integral do calendário escolar, de acordo com as orientações do Governo, mas as dificuldades são enormes. Mesmo assim, revelou que no próximo ano pretendem implementar o nível do décimo segundo ano, como forma de facilitar o processo estudantil de alunos.

Para Binha Dju, presidente dos alunos de uma das escolas públicas, as dificuldades são várias, a começar pela ausência do décimo segundo ano, complicando-se ainda mais com a pressão do cumprimento da tradição, cujo calendário coincide com o período escolar, o que vem prejudicar, e de que maneira, a continuidade de aulas dos alunos.

Segundo Binha, também enfrentam o problema da falta abusiva dos professores nas aulas. Por outro lado, reconheceu que o índice de abandono escolar no presente ano letivo pode vir a superar os anos letivos anteriores.

Para o efeito, pediu ao Governo que crie uma lei a proibir a prática da circuncisão, sobretudo no período de aulas, tomando em conta as suas consequências sobre o futuro dos alunos.

De salientar que a falta de uma biblioteca está a condicionar o uso de kits de diversos livros de leitura para os alunos e estudantes. O material foi angariado pela Associação dos Filhos e Amigos de Prábis (APAF), no quadro da parceria com a sua congénere de Portugal, com o objetivo de promover o gosto pela leitura e realçar o nível de conhecimento dos seus consumidores, na maioria jovens.

Tentámos, sem sucesso, falar com os representantes do poder tradicional, delegado de serviço de segurança, ou seja, a Polícia de Ordem Pública e com o delegado de educação local, respetivamente.

Texto e foto: Nelinho N’Tanhá

 

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